domingo, 2 de novembro de 2008

Para se refletir...

Dia após dia sigo a minha agenda para o fim da tarde, vou ao parque e sento, sempre, no mesmo banco de madeira descascado e tão envelhecido que quando chove tenho a leve impressão de que a madeira está amolecendo e aos poucos se desfazendo. Faço isso há anos - levando apenas um bloco com folhas vazias e uma caneta que nunca chego a usar - e não me lembro de já ter visto aquele banco ocupado, nem mesmo vi gente em volta dele. Um silêncio ensurdecedor me envolve em minhas reflexões até que eu tire a tampa da caneta, mas nenhuma palavra sai, então volto a tampá-la.
Sempre foi assim, porém, naquele dia havia algo diferente, algo que eu não conseguia enxergar; a paisagem parecia meio fora de ordem, mas eu olhava para todos os lados e não conseguia perceber nada que tivesse mudado durante as curtas horas em que me mantive fora daquele lugar. Fui para casa afundada em meus pensamentos - que geralmente andavam vazios - e agoniada por não ter notado a causa da desordem que quebrou minha rotina.
No dia seguinte, voltei à mesma hora, como era de costume, ansiosa para descobrir o que estava errado. Sentei, então, no velho banco de madeira e esperei, observando cada ponto, que algo acontecesse. Dessa vez eu não abri a caneta e quando já estava decidida a ir embora, um vento repentino fez com que minhas folhas vazias e soltas voassem pra perto de uma árvore. Só demorou um segundo para que eu percebesse a presença de um garotinho que devia ter no máximo nove anos, ele estava sentado com suas pequenas pernas, cruzadas e encostado nos pés da mesma árvore onde minhas folhas foram parar. Ao olhar para ele, percebi que sua expressão era de surpresa, quase assustada. Fui me aproximando lentamente, esperando que a expressão em seus olhos mudasse, embora só tenha conseguido fazer com que se enfatizasse.
Após um longo intervalo calada só analisando-o, resolvi arriscar uma pergunta, mas sem muita expectativa:
- Era você quem estava aqui ontem? – o garoto pareceu ignorar a minha pergunta, deixou que alguns segundos se passassem...
- Sabe, – Começou ele, sua voz era suave e baixa, quase não conseguia ouvi-la – eu venho aqui todos os dias há seis meses e fico lhe observando, sempre, dessa mesma árvore, mas você parecia nunca me notar e eu só deixei de vir uma vez. – Ele me olhou como se quisesse dizer mais do que estava sendo dito – É exatamente desse dia que está questionando minha presença.
Ele se levantou, entregando-me as folhas em branco, e abaixou a cabeça, assim eu o vi se afastar em passos desanimados. Só então fui digerir o que o garotinho me dissera em linhas subentendidas. Olhei para os papéis mais uma vez, ainda tentando entender tudo aquilo. Não me surpreendi ao ver que estavam cobertos por palavras escritas a caneta, embora os últimos rabiscos tenham me chamado a atenção. Eis o que estava escrito: Em meio a essa desordem, a ignorância me cai bem. Para quê lembranças ou percepções se carregamos a vida inteira uma janela com vista para o nosso funeral?!